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amor liquido·19 de mai. de 2026·5 min de leitura

O que Bauman diria sobre a sociedade atual?

Nada é feito para durar; relações, produtos e até a moral são voláteis e descartáveis.

O que Bauman diria sobre a sociedade atual?

Tempos atrás fiz uma newsletter sobre o amor líquido, mas de lá pra cá consumi mais conteúdos de Bauman, e também de outros pensadores com ideias semelhantes, então decidi desenvolver esse artigo sobre a dominância da efemeridade na nossa sociedade atual.


O que Bauman diria sobre a sociedade atual?

Zygmunt Bauman | 1925 – 2017

Ele foi um filósofo e sociólogo que popularizou o termo Líquido para se referir a características que não são sólidas, de estruturas sociais que antes eram mais robustas e hoje carecem de solidez, fadadas à efemeridade, o termo demonstra o quanto a sociedade atual é dinâmica e suscetível a mudanças.

E foi com esse pensamento que Bauman criou o seu “estilo” e desenvolveu vários livros:

O que Bauman diria sobre a sociedade atual?

Liquidez em tempos pós-pandemia

É do conhecimento de todos que o mundo está sempre mudando, que todo mundo diz que “antigamente era melhor” e talvez, em muitos aspectos, realmente tenha sido.

O mundo adoeceu bastante, principalmente após a globalização e com os avanços tecnológicos recentes.

Mas parece que a pandemia potencializou isso ainda mais, o contato humano diminuiu significativamente, as redes sociais substituíram as conversas e viraram anestésicos para a rotina das pessoas.

Então, o mundo moderno mudou a vida social das pessoas, tem sido tudo bastante acelerado, sem tempo para amizades, hobbies, boas relações, e com diversos problemas crônicos:

  • Excesso de opções

  • Excesso de comparação

  • Falta de relacionamentos

  • Falta de atenção e excesso de distrações

  • Muito acesso

Na sociedade atual quase todos têm acesso a pessoas de todo canto do mundo, acesso a problemas que elas não enfrentam e se alarmam com, acesso a uma gama de produtos, acesso a relacionamentos alheios (um dos grandes responsáveis pela comparação constante)…

Hoje, a vida real virou um refúgio da tecnologia, mas anos atrás era o contrário: a tecnologia, que antes era feita para ser passatempo, se tornou A vida.

E tudo isso se conecta no assunto “consumo”, quando falamos de produtos também pensamos em “antigamente os produtos eram feitos para durar” e realmente eram, hoje os produtos são feitos para serem atualizados/trocados devido a alta produção e consumo da sociedade atual, e todos nós entramos nessa, queremos trocar de celular rapidamente, quando sai um produto novo queremos comprar, quando uma blogueira mostra algo da rotina dela (que você nem precisa) você também quer comprar.


Descontentamento

A vasta gama de opções, o alto consumo, e o excesso de comparação fazem com que nós nunca fiquemos satisfeitos com o que temos, seja um carro, um celular, uma roupa ou até mesmo com o próprio corpo (infelizmente essa também é uma causa).

Por isso o público opta por itens antigos, câmeras analógicas, e ter um estilo mais “antigo”, para tentar fugir deste mundo que se atualiza todo dia, como se fosse um celular, que todo dia tem uma atualização nova, parece que nunca estamos no presente, sempre visando estar atualizados, vivendo em FOMO.

Mas o público “nostálgico” também está começando a ser afetado, as empresas estão entendendo que a nostalgia vende muito, porque aquelas pessoas que estão presas ao passado também podem ser atingidas, e então eles relançam filmes, recriam produtos populares no passado ou apenas investem em uma repaginação da marca.

O que Bauman diria sobre a sociedade atual?

Relacionamentos

Acredito que a maioria não tenha lido meu artigo sobre o Amor líquido mas vou tentar recapitular…

Os relacionamentos modernos, excluindo alguns (estou falando da maioria, assim como Bauman) sofrem com todos os efeitos da globalização e o consumismo.

Pessoas não se comprometem de verdade por medo de perder algo supostamente melhor, os relacionamentos também estão sendo medidos por fatores externos como trends de “homem com H maiúsculo” ou “mulher com tatuagem de borboleta”, onde todo mundo tem uma receita.

Mas o principal ponto do Amor líquido é a fragilidade dos laços, porque hoje as pessoas têm acesso a milhares de opções, ainda mais do que na época em que ele escreveu o livro, porque hoje nós temos aplicativos de relacionamentos e vitrines digitais onde quase todo mundo busca por validação, e no Amor líquido a quantidade ganha da qualidade. Mas…

Ninguém entende mais de amor porque se relacionou centenas de vezes, aquele que amou a mesma pessoa durante toda a vida entende muito mais.

E o Amor líquido não precisa ser só no âmbito romântico, mas em todos os âmbitos.

As amizades também foram atingidas pela velocidade do mundo moderno, as relações com os pais também foram afetadas assim como todo o resto.


Minimalismo e simplificação

Até o físico foi afetado pela modernidade líquida, as casas, igrejas, lojas, e toda a arquitetura moderna foi infectada pelo “minimalismo”, como uma forma de simplificar a vida, tudo ficou sem cor e quadradas como consultórios, talvez para baratear custos ou por simplesmente se tornar um padrão moderno, afinal, você não encontra muitas pessoas fazendo.

Tudo quer parecer “sério demais”, ninguém preza mais pela beleza da vida e da criação, acabou o amor pela cultura, pela arquitetura, e no fim, pela vida.

Num panorama geral, quase ninguém mais lê ficção, quer casas belas, e coisas assim, ninguém quer ter “trabalho” porque está tudo muito corrido e acreditam estar atrasados para a vida, sem tempo para pensar, sem tempo para ser único.


Até a moral é líquida.

(Não adianta você tentar usar o que vou falar aqui para atacar algum “lado”, senão você só comprova o ponto.)

Basta ver o seu político de estimação falando ou fazendo a maior atrocidade na história da humanidade que você vai defender porque não gosta do outro “lado”.

Basta saber o que seu familiar pensa sobre política para que você se afaste, pare de frequentar um almoço de família e crie um ódio mortal.

A moral foi reduzida ao “depende”, os valores morais deixaram de ser sólidos, estáveis e coletivos… e passaram a mudar conforme a conveniência, o contexto ou o interesse do momento.


O que faltou para Bauman…

Infelizmente só faltou a Bauman escrever sobre as IAs e a crise do conhecimento (não lembro de ter lido nada sobre) onde as pessoas terceirizam decisões para ferramentas como o ChatGPT, fazem “terapias” com inteligência artificial, e param de pensar.

Ao invés de pesquisar, ler e realmente estudar, preferem apenas perguntar a um robô.

Mas esse é um tema que pode ser desenvolvido em outra newsletter, já escrevi bastante. 😅


Zygmunt Bauman e Byung Chul Han

Irei escrever em breve sobre Chul Han, porque esses dois que citei são meus pensadores “modernos” favoritos, pois carregam questionamentos sobre a atualidade e que eu também gosto de pensar.

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